Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Página Inicial > Notícias > Notícia do Portal > Pesquisa sobre conflito de Alto Alegre vence prêmio de dissertação
Início do conteúdo da página Notícias

Pesquisa sobre conflito de Alto Alegre vence prêmio de dissertação

Trabalho de Carlos Eduardo Everton foi escolhido como o melhor de 2016.
  • Maycon Rangel
  • publicado 10/05/2017 13h01
  • última modificação 10/05/2017 13h03

Carlos Eduardo (último da esq. para a dir.) recebe o prêmio de melhor dissertação (2016)

Em 13 de março de 1901, o município de Barra do Corda foi palco de um evento que ficou conhecido como “Massacre” de Alto Alegre. De acordo com números oficiais divulgados pela imprensa da época, cerca de duzentos missionários religiosos (eclesiásticos e leigos) foram assassinados por índios Tenetehara-Guajajara em um aldeamento religioso. A memória oficial acabou estigmatizado os indígenas, que até hoje são vistos com desconfiança e menosprezo pela população local.

Com o objetivo de analisar o embate de memórias construídas sobre o episódio, o professor Carlos Eduardo Everton, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) Campus Barra do Corda vem desenvolvendo pesquisas sobre o tema. O trabalho “Hoje e amanhã celebrai a história para encarnar-vos no povo”: os embates de memória sobre o Conflito de Alto Alegre, venceu o Prêmio Teses e Dissertações, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade Estadual do Maranhão (PPG/Uema). A entrega do prêmio foi realizada no dia 26 de abril pelo reitor da Uema, Gustavo da Costa, e pelo pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, Marcelo Cheche. A pesquisa foi desenvolvida como parte do Mestrado em História, Ensino e Narrativas (PPGHEN) da Uema e de atividades docentes de pesquisa, tendo como área as cidades de Barra do Corda, Jenipapo dos Vieiras e Fernando Falcão. No desenvolvimento, houve, inclusive, duas pesquisas de iniciação científica do Pibic Jr com bolsas do CNPq no biênio 2015/2016, por meio do Edital da PRPGI/2015: Narrativas Kanela e Tenetehara-Guajajara sobre o “Conflito de Alto Alegre” e O Conflito de Alto Alegre: uma narração através dos quadrinhos.

 

A pesquisa

Imagens de missionários mortos na fachada da Igreja Matriz de Barra do Corda

Na dissertação, Carlos Everton busca analisar a formação do imaginário local a partir de algumas referências que são fundamentais para erigir uma espécie de “memória cristalizada” ou “oficial”. “São apropriações, pela população, dos escritos da imprensa da época, bem como da Igreja e, em particular, da Ordem dos Capuchinhos. Evidentemente que, em se tratando das instituições citadas e de onde é construído esse discurso, essa memória foi se transformando em uma condição de – quase – santificação dos religiosos e, no outro extremo, de culpabilidade e estigmatização aos Tenetehara-Guajajara”, contextualiza.

De acordo com o pesquisador, as instituições que personificam um discurso de coerção – Estado e Igreja, sobretudo –, trataram de evidenciar aspectos negativos, de selvageria e violência dos indígenas, sem contextualizá-los, insibilizando todas as questões que motivaram o Levante Tenetehara. Alguns mecanismos foram criados para consolidar esse imaginário: lugares de memória, como a Igreja Matriz de Barra do Corda, construída em função dos 50 anos do conflito; a ritualização do fato, com celebração de missas; a fixação de uma versão amplamente parcial e desfavorável aos indígenas. “Obras da Igreja (escritos e imagens) e a própria influência desse poder espiritual na população cordina favoreceram a consolidação dessa memória coletiva e a assimilação pela população (exceção aos Tenetahara-Guajajara) da responsabilidade dos indígenas pelo conflito – então propagado como “massacre”. Esses elementos foram se transformando em símbolos consolidados de uma memória impossibilitante de outra leitura que não a tradicional, contrária aos Tenetehara”, analisa.

O estudo propõe que a abertura de um campo maior de discussões a respeito dessa temática, inclusive possibilitando “voz” aos povos indígenas envolvidos no conflito – em particular os Tenetehara-Guajajara – é um caminho fundamental para operar uma mudança nesse processo. “A realização de pesquisas, a partir de vários olhares e áreas de conhecimento, concede uma grande contribuição no sentido da oferta de outra visão do conflito, da produção de um outro imaginário que, se não irá – necessariamente – reverter a memória existente, irá certamente possibilitar que se avalie essa questão por outro olhar, de um dos lados envolvidos e, até o presente momento, praticamente silenciado”.

 

História e cidadania

De acordo com o professor, a História, enquanto disciplina e campo de conhecimento, tem um papel relevante na construção da cidadania e reconhecimento dos direitos humanos, sobretudo no contexto das populações que têm esses direitos negados e dos grupos que representam minorias. O estudo da história e da identidade desses povos fortalece as possibilidades de oferecer à comunidade outras formas de compreender fatos, como o Conflito de Alto Alegre, de maneira contextualizada, ampliando o entendimento de todos e reduzindo o sentimento de exclusão desses grupos. “A História assim, cumpre essa função primordial para empoderamento e positivação dos grupos sociais, através do conhecimento de sua trajetória, de suas lutas e idiossincrasias”.

Carlos Everton avalia também que a escola ainda tem um trabalho bastante embrionário na construção de um modelo social mais justo e igualitário, e muitas vezes ainda alimenta determinados padrões de desigualdade e exclusão que precisam ser desconstruídos. Para ele, além de discussões mais frequentes a respeito das temáticas relacionadas ao universo da vivência e história desses povos, é necessário desenvolver projetos de extensão e pesquisa nesse âmbito. “No campus Barra do Corda, por exemplo, temos avançado bastante com as pesquisas em relação aos povos indígenas em diversas áreas de conhecimento, como a História, Educação, Ciências Sociais e as Letras. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas creio que, a permanecer assim, estamos trilhando a vereda certa”, conclui.

Fim do conteúdo da página